Guerras: o que impele o homem e seu futuro desaparecimento
Guerras: o que impele o homem e seu futuro desaparecimento à luz do Livro dos Espíritos

Ao longo da história humana, a guerra tem se apresentado como uma das expressões mais dramáticas da condição moral do ser humano. Civilizações se ergueram e ruíram sob seu peso, famílias foram dilaceradas, e gerações inteiras carregaram as marcas profundas da violência coletiva. Diante desse cenário, é natural que o espírito humano, em busca de sentido, pergunte: por que ainda nos guerreamos? E mais profundamente: haverá um dia em que a guerra deixará de existir?
A Doutrina Espírita, ao abordar essas questões, não se limita a descrever os fatos históricos ou sociais. Ela mergulha nas causas profundas que residem na alma humana, revelando que a guerra não é um fenômeno isolado, mas um reflexo direto do estado íntimo dos indivíduos e das coletividades. As perguntas 742 e 743 de O Livro dos Espíritos oferecem um ponto de partida seguro para essa reflexão, trazendo respostas claras e diretas sobre as causas das guerras e seu destino no processo evolutivo da humanidade.
Ao mesmo tempo, os comentários do espírito Miramez na obra Filosofia Espírita, através da mediunidade de João Nunes Maia, ampliam essa visão, trazendo uma análise sensível e profunda das dinâmicas espirituais que envolvem os conflitos humanos. Ao integrar essas duas fontes, encontramos não apenas explicações, mas também um convite à transformação interior, pois compreender a guerra é, antes de tudo, compreender a si mesmo.
Este estudo busca, portanto, percorrer esse caminho com serenidade e profundidade, examinando as causas espirituais da guerra, sua função no processo evolutivo e, principalmente, o horizonte de esperança que se desenha com o seu futuro desaparecimento.
A origem da guerra: a predominância da natureza animal
Quando se pergunta o que impele o homem à guerra, a resposta apresentada é direta e profundamente reveladora: trata-se da predominância da natureza animal sobre a natureza espiritual, associada ao transbordamento das paixões. Essa afirmação, embora simples à primeira vista, carrega implicações vastas e profundas.
A natureza animal, no contexto espiritual, não deve ser entendida como algo negativo em si, mas como uma etapa necessária do processo evolutivo. Ela representa os instintos primários de conservação, defesa e sobrevivência, herdados das fases iniciais da evolução do espírito. O problema surge quando esses impulsos deixam de ser disciplinados pela consciência moral e passam a governar as decisões humanas.
Nesse estado, o indivíduo — e, por extensão, os povos — passa a agir movido por impulsos de domínio, orgulho, ambição e medo. A guerra, então, deixa de ser uma exceção e se torna uma consequência quase natural desse desequilíbrio interior. Quando o homem ainda não desenvolveu plenamente sua natureza espiritual, ele tende a enxergar o outro não como irmão, mas como ameaça ou obstáculo.
Miramez aprofunda essa análise ao afirmar que a fonte das ideias de guerra está na ignorância das leis divinas. Essa ignorância não é apenas intelectual, mas sobretudo moral. O homem pode até conhecer conceitos elevados, mas se não os vivencia, permanece preso às mesmas tendências inferiores.
Essa perspectiva nos convida a uma reflexão importante: a guerra não começa nos campos de batalha, mas nos pensamentos e sentimentos. Antes de se manifestar como conflito armado, ela já se encontra presente na intolerância, no egoísmo e na incapacidade de conviver com o diferente.
O papel das paixões e o direito do mais forte
Ao observarmos a história, percebemos que muitos conflitos foram justificados por ideais aparentemente nobres, mas, em sua essência, estavam profundamente enraizados em paixões humanas. O orgulho nacional, a busca por poder, a ambição econômica e o desejo de supremacia frequentemente se escondem por trás de discursos elevados.
A Doutrina Espírita aponta que, nos estados mais primitivos da humanidade, o único direito reconhecido é o do mais forte. Esse princípio, ainda hoje presente em diversas formas, revela o quanto a humanidade ainda carrega resquícios de sua fase de barbárie.
Miramez destaca que o homem, infelizmente, continua a valorizar a força material — seja ela representada por armas ou riqueza — em detrimento da força moral. Essa inversão de valores sustenta estruturas de poder que alimentam conflitos e perpetuam desigualdades.
É interessante notar que essa lógica não se limita às relações entre nações. Ela também se manifesta nas relações interpessoais, nas disputas por poder dentro de grupos e até mesmo nos conflitos internos do próprio indivíduo. Sempre que se busca impor a própria vontade pela força, em vez de dialogar com base no respeito e na compreensão, estamos reproduzindo, em menor escala, a lógica da guerra.
O ensinamento evangélico lembrado por Miramez reforça essa ideia ao afirmar que aquele que se exalta será humilhado, e aquele que se humilha será exaltado. Trata-se de uma lei moral que, embora muitas vezes ignorada, atua de forma constante na vida humana, promovendo ajustes e reequilíbrios.
A influência espiritual nos conflitos humanos
Um dos pontos mais sensíveis e frequentemente mal compreendidos diz respeito à participação do mundo espiritual nos processos de guerra. Miramez esclarece que espíritos ainda presos a sentimentos inferiores podem influenciar os homens, incentivando ideias de ódio e violência.
Essa influência, no entanto, não deve ser vista como uma imposição externa. Ela ocorre por afinidade. Espíritos encarnados e desencarnados se conectam por sintonia de pensamentos e sentimentos. Assim, ambientes onde predominam o orgulho, a revolta e a intolerância tornam-se campos férteis para a intensificação dessas influências.
Por outro lado, é fundamental compreender que a ação espiritual não se limita a esse aspecto inferior. Espíritos benevolentes também atuam, buscando minimizar os danos, inspirar ideias de paz e auxiliar aqueles que sofrem. Mesmo nos momentos mais sombrios, a assistência divina não se ausenta.
Essa visão amplia nossa compreensão dos conflitos, mostrando que eles não são apenas eventos materiais, mas também espirituais. Ao mesmo tempo, reforça a responsabilidade individual, pois cada pensamento cultivado contribui para o ambiente espiritual coletivo.
A guerra como instrumento de aprendizado
Um ponto que pode causar estranheza é a ideia de que as guerras, embora dolorosas, podem desempenhar um papel no processo evolutivo. Miramez utiliza a imagem de uma intervenção necessária para tratar um mal mais profundo, comparando-as a operações que visam eliminar um tumor.
Essa analogia não busca justificar a guerra, mas explicar sua função dentro de um contexto maior. Em muitos casos, o sofrimento coletivo desperta consciências, rompe ilusões e impulsiona mudanças que dificilmente ocorreriam em contextos de conforto.
Ao longo da história, grandes transformações sociais, políticas e morais foram aceleradas por crises profundas. Isso não significa que a dor seja desejável, mas evidencia que, mesmo diante do sofrimento, há sempre a possibilidade de aprendizado e crescimento.
A lei divina, sendo essencialmente justa e misericordiosa, não desperdiça experiências. Tudo é aproveitado no processo de evolução. Assim, mesmo os erros coletivos acabam contribuindo, de forma indireta, para o despertar da humanidade.
O progresso espiritual e o enfraquecimento das guerras
À medida que a humanidade avança moralmente, a tendência é que as guerras se tornem cada vez menos frequentes. Esse processo não ocorre de forma abrupta, mas gradual, acompanhando o desenvolvimento da consciência coletiva.
O próprio enunciado da questão 742 indica que, com o progresso, o homem passa a evitar as causas da guerra e, quando ainda a considera necessária, procura conduzi-la com maior humanidade. Embora essa ideia ainda esteja longe de uma realidade ideal, já podemos perceber, ao longo do tempo, mudanças na forma como os conflitos são encarados.
A criação de leis internacionais, organizações de cooperação entre nações e movimentos em prol da paz são sinais desse avanço. Ainda imperfeitos, esses esforços refletem uma mudança de mentalidade que aponta para um futuro diferente.
Miramez acrescenta que as guerras são próprias de estágios mais primitivos e que, com o tempo, desaparecerão. Essa afirmação não é uma utopia ingênua, mas uma consequência lógica do progresso espiritual. À medida que o amor e a fraternidade se tornarem valores vividos, a guerra perderá sua razão de existir.
A guerra interior: o verdadeiro campo de batalha
Talvez um dos ensinamentos mais profundos apresentados seja o deslocamento do foco da guerra externa para a guerra interna. Miramez afirma que a verdadeira batalha que devemos travar é contra nossos próprios defeitos morais.
Essa perspectiva muda completamente a forma como entendemos o problema. Em vez de enxergar a guerra apenas como um fenômeno externo, passamos a reconhecê-la como um reflexo das lutas internas não resolvidas.
O orgulho, a inveja, a intolerância e o egoísmo são inimigos silenciosos que, quando não enfrentados, se projetam nas relações humanas, gerando conflitos de diversas naturezas. Ao trabalhar essas imperfeições dentro de si, o indivíduo contribui diretamente para a construção de um mundo mais pacífico.
Essa transformação não exige grandes gestos heroicos, mas pequenas mudanças no cotidiano: aprender a ouvir, respeitar o diferente, controlar impulsos e cultivar o bem. São atitudes simples, mas profundamente transformadoras.
O desaparecimento da guerra: uma promessa da evolução
A resposta à questão 743 traz uma mensagem de esperança: a guerra desaparecerá da face da Terra quando os homens compreenderem a justiça e praticarem a lei de Deus. Esse futuro não é condicionado a fatores externos, mas à transformação interior da humanidade.
Miramez reforça essa ideia ao destacar que o amor será a força unificadora entre os povos. Não um amor abstrato, mas vivido na prática, nas relações diárias, na forma como tratamos o próximo e conduzimos nossas responsabilidades.
Esse processo já está em curso. Embora ainda existam muitos desafios, também há um crescente movimento em direção à cooperação, à solidariedade e à valorização da vida. Cada gesto de bondade, cada esforço sincero de compreensão contribui para esse avanço.
É importante compreender que essa transformação não ocorrerá de forma automática. Ela depende do esforço consciente de cada indivíduo. O mundo que desejamos construir começa dentro de nós.
A construção da paz como responsabilidade individual
Ao refletirmos sobre tudo isso, torna-se evidente que a paz não é apenas um ideal coletivo, mas uma construção individual. Cada pensamento, cada palavra e cada ação contribuem para o ambiente em que vivemos.
Não se trata de ignorar os problemas do mundo, mas de agir de forma consciente dentro das possibilidades de cada um. Pequenos gestos, quando somados, têm um impacto significativo.
A Doutrina Espírita nos convida a assumir essa responsabilidade com serenidade e confiança, lembrando que estamos todos em processo de aprendizado. Ninguém é perfeito, mas todos somos capazes de melhorar.
A transformação do mundo começa com a transformação do indivíduo. E é nesse caminho, passo a passo, que a humanidade se aproxima do dia em que a guerra será apenas uma lembrança distante de um passado superado.
Evolução moral da humanidade
Ao examinarmos as causas das guerras e seu futuro desaparecimento à luz dos ensinamentos espirituais, percebemos que estamos diante de um processo profundamente ligado à evolução moral da humanidade. A guerra não é um destino inevitável, mas uma consequência transitória de um estado ainda imperfeito.
A predominância da natureza animal, o domínio das paixões e a ignorância das leis divinas explicam sua origem. Por outro lado, o desenvolvimento da consciência, a prática do amor e o esforço de transformação interior apontam para sua superação.
Os ensinamentos analisados nos mostram que a paz não será imposta de fora para dentro, mas construída de dentro para fora. Cada ser humano tem um papel nesse processo, e é na vivência cotidiana dos valores espirituais que essa mudança se concretiza.
Assim, ao invés de nos perguntarmos apenas quando a guerra deixará de existir, talvez devamos nos perguntar: o que estou fazendo, hoje, para que ela deixe de existir? É nessa resposta, íntima e sincera, que começa a construção de um mundo novo, onde a paz não será apenas um ideal, mas uma realidade vivida por todos.
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